Linda de ventre na cabeça o pote,
Antecede a aurora e se levanta;
Quadris dançando quando anda,
Lá vai de carapinhas e sem decote.
Fez-lhe essa vida um tenro mote,
Num sorrir perpétuo tudo encanta;
Afoga-o suavemente quando canta,
Sua dor para que ninguém o note.
Só com o sol da sua alma longe vai,
Tocando a si e ela a lâmina da brisa,
Que faz da dor do seu corpo um rito.
Antes, sua voz etérea em mim poisa
Despedindo-me do que apenas eu fito
Linda de carapinha, sem decote lá vai
António Vicente
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